Fotomontagem com foto antiga de Auguste de Saint-Hilaire e Patrocinio por volta de 1900 (quase 90 após a passagem do naturalista francês).
Por Redação POL/Alberto Sanarelli
No final de maio de 1819, os caminhos de terra do interior de Minas Gerais receberam a passagem de um dos mais importantes naturalistas europeus de seu tempo: o francês Auguste de Saint-Hilaire. Em sua viagem rumo às nascentes do Rio São Francisco e, posteriormente, às terras de Goiás, o pesquisador atravessou a região que hoje integra o município de Patrocínio e registrou em seus relatos detalhes preciosos sobre o pequeno Arraial de Nossa Senhora do Patrocínio.
O testemunho deixado pelo naturalista é um dos mais importantes registros sobre como era Patrocínio há mais de dois séculos. Naquele momento, o povoado ainda era um pequeno arraial ligado a Araxá, muito distante da estrutura urbana que a cidade apresentaria nas décadas seguintes.
Depois de passar pela região do Salitre e pela fazenda de Dâmaso José da Silva, Saint-Hilaire seguiu em direção ao arraial de Patrocínio.
O naturalista registrou que o povoado estava situado sobre a crista de uma colina, em uma área que corresponde ao núcleo onde posteriormente se consolidaria a região central da cidade.
A descrição feita pelo francês permite imaginar com bastante precisão o cenário encontrado em 1819.
Segundo Saint-Hilaire, havia no local cerca de quarenta casas muito pequenas, construídas de barro e madeira, cobertas de telhas e sem reboco. As construções estavam dispostas em duas fileiras, formando uma praça alongada.
No centro dessa praça havia uma pequena capela, também construída de barro e madeira.
Era um povoado simples, de poucas construções e com uma população permanente bastante reduzida. O relato de Saint-Hilaire informa ainda que Patrocínio dependia da paróquia de Araxá e contava com um vigário encarregado dos serviços religiosos.
Um arraial onde os fazendeiros apareciam aos domingos
Saint-Hilaire deixou também observações sobre a maneira como o pequeno povoado era ocupado.
De acordo com seu relato, muitas das casas pertenciam a fazendeiros que permaneciam em suas propriedades rurais e compareciam ao arraial principalmente aos domingos.
Os moradores permanentes eram poucos. Entre eles estavam alguns artesãos e dois ou três pequenos comerciantes, além de outras pessoas que o naturalista descreveu de maneira bastante crítica, utilizando termos característicos de sua época.
Esse registro ajuda a compreender que o Patrocínio de 1819 ainda não possuía uma população urbana numerosa. O arraial funcionava como um pequeno núcleo de apoio para os moradores das fazendas e para aqueles que percorriam as rotas do interior.
A hospedagem que terminou ao relento
A passagem de Saint-Hilaire por Patrocínio também ficou marcada por uma situação curiosa — e bastante desconfortável.
Quando a comitiva se aproximou do arraial, José Mariano, um dos homens que acompanhavam o viajante, procurou uma hospedagem. A casa do vigário era pequena demais para receber todo o grupo.
Foi então indicada uma casa recém-construída.
As bagagens foram deixadas no local, mas, quando Saint-Hilaire chegou, foi informado de que a residência estava infestada de bichos-de-pé.
O problema era tão grande que a comitiva acabou passando a noite ao relento, episódio que o próprio naturalista registrou em seu relato.
A situação revela, de maneira bastante concreta, as condições precárias encontradas pelo viajante durante sua passagem pelo interior brasileiro.
O Fazendeiro Intelectual e a região do Salitre
Antes de chegar ao arraial, Saint-Hilaire passou pela fazenda de Dâmaso José da Silva, personagem que se destacava entre os moradores da região. Ele foi um dos responsáveis pela emancipação do município e compôs uma das primeiras camaras de Patrocínio.
O naturalista descreveu Dâmaso como um homem de cultura e conhecimento incomuns entre os fazendeiros que havia encontrado durante sua viagem. A fazenda ficava na região situada entre o atual distrito de Salitre e a Serra do Salitre.
A passagem pela propriedade de Dâmaso integra o percurso realizado pelo naturalista entre Araxá e o Arraial de Nossa Senhora do Patrocínio.
A região do Salitre (hoje distrito) também chamou a atenção de Saint-Hilaire pelas características de suas terras, pastagens e águas minerais. Em seus relatos, o francês registrou a importância dos recursos naturais encontrados nessa parte do território.
Patrocínio visto por um viajante de 1819
O relato de Saint-Hilaire não é apenas uma descrição de paisagens. Ele permite conhecer aspectos do cotidiano, da economia, das condições das moradias e da organização social de um pequeno povoado do início do século XIX.
Em 1819, o lugar que hoje conhecemos como Patrocínio era formado por aproximadamente quarenta casas, uma pequena capela e poucos moradores permanentes.
O arraial ainda dependia administrativamente e religiosamente de outras localidades e não possuía a autonomia que conquistaria nas décadas seguintes.
A história, entretanto, começava a ganhar novos contornos.
Em 23 de março de 1840, a Lei Provincial nº 171 criou a Vila e o Município de Nossa Senhora do Patrocínio, desmembrando-o de Araxá. A instalação ocorreu em 7 de abril de 1842. Mais tarde, em 13 de novembro de 1873, a sede do município recebeu foros de cidade, instalando-se como tal em 12 de janeiro de 1874.
De quarenta casas à cidade progressita de hoje
A distância entre a Patrocínio descrita por Saint-Hilaire e a cidade atual é de mais de dois séculos de transformações.
O viajante francês encontrou um pequeno arraial, com casas simples de barro e madeira, uma capela no centro da praça e poucos moradores permanentes.
Hoje, o mesmo núcleo histórico deu origem a uma cidade que se expandiu muito além dos limites daquele pequeno povoado registrado pelo naturalista.
É justamente por isso que o relato de Saint-Hilaire possui um valor especial para a memória patrocinense: suas palavras permitem voltar no tempo e observar, por meio dos olhos de um viajante estrangeiro, como era Patrocínio em 1819.
A descrição das quarenta casas, da praça e da pequena capela constitui um dos retratos mais antigos e detalhados do núcleo que se transformaria na atual cidade de Patrocínio, que mantém a vocação para o agro.
Sobre Auguste de Saint-Hilaire
Auguste François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1779–1853) foi um naturalista francês que percorreu grande parte do Brasil no início do século XIX.
Chegou ao país em 1816 e, durante vários anos, realizou extensas viagens por diferentes regiões brasileiras, estudando a flora, a fauna, a geografia, os costumes e as condições de vida das populações.
Em sua viagem pelas nascentes do Rio São Francisco, passou pela região de Araxá, Salitre e Patrocínio em 1819.
Seu livro “Viagem às Nascentes do Rio São Francisco” tornou-se uma importante fonte histórica para o conhecimento do interior brasileiro daquele período.
Para Patrocínio, o relato representa um registro extraordinário: há mais de 200 anos, Saint-Hilaire passou pelo pequeno Arraial de Nossa Senhora do Patrocínio e deixou descrito, para as gerações futuras, um retrato de um lugar com seu protaganismo na história de Minas.
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