História. Contada por quem a viveu é mais real. É mais sentimental. Tanto se fala, se escreve, sobre os padres holandeses em Patrocínio. Sua cultura, seus hábitos, sua pedagogia, sua religiosidade, seu trabalho em prol da educação regional, marcaram a presença dos padres de batina branca na cidade, de 1926 até os anos 80. Sobretudo, no ensino e na condução da religião católica. Portanto, na formação moral e cívica-educacional de quase 15 gerações, principalmente constituídas por patrocinenses. Como exemplo, o destaque é a geração do finalzinho dos anos 50 e começo dos anos 60. Daí, há cerca de 65 anos atrás. Tempo em que havia cinema na escola (Ginásio Dom Lustosa–GDL), obrigação de comparecer à Santa Missa aos domingos e dias santos; assistir filmes “proibidos” pela Igreja era pecado e daí era obrigado a confessar no Confessionário; nadar em piscina de água fria corrente, às 6h da manhã, no inverno; a escola era residência dos padres e hotel (internato) de alunos de outras cidades. Tempo em que a escola ensinava o básico de quatro línguas (latim, francês, inglês e português), música e até como proferir discursos. Quem participou e viveu o mundo holandês em Patrocínio conta (narra).
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FALTAVA À MISSA, PERDIA PONTOS – Assistir à Santa Missa, nos dias indicados pela Igreja, era dever. Se fosse comprovada a ausência, o aluno era penalizado com perda de pontos nas provas mensais. Contudo, como era feito o controle da presença às missas? Fácil. A missa tinha horário determinado. Domingo, 8h30min, na Igreja Matriz. A partir das 8h, na porta central da Igreja, ficava um aluno de confiança dos padres holandeses, recolhendo a Caderneta Escolar de cada aluno (nessa época, era o Ademar Nunes, mais conhecido por “Bagunça”). Durante o Evangelho, ele ia à Sacristia e carimbava “Missa” na caderneta. No final da Missa, devolvia a caderneta a cada aluno presente. Na segunda-feira, era o “acerto de contas”, no GDL.

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FILME “PROIBIDO” DAVA PENITÊNCIA DE ATÉ REZAR O TERÇO POR SETE DIAS! – Na porta central da Igreja Matriz, no quadro de avisos, estava afixado os filmes da semana, que seriam exibidos no Cine Rosário e Cine Patrocínio. Com as suas cotações para todos os católicos. Cotação em uma só palavra. “Livre”, “Adolescente”, “Adulto” (maiores de 18 anos), “Prejudicial” (desaconselhável) e “Proibido” (era pecado assistir). Como exemplo de filme “proibido” havia “E Deus criou a Mulher”, com a encantadora atriz francesa Brigitte Bardot (disponível no Prime Vídeo). Como era pecado, a confissão junto ao sacerdote era obrigatória para, depois, estar apto a receber à comunhão. Contudo, confessando o “pecado” tinha a penitência. Variava de acordo com o padre. Ir à missa todos os dias na semana, visitar os enfermos, etc. eram as penitências para os “pecadores”.
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DOM LUSTOSA DOMINAVA OS ESPORTES – Na ocasião, o futebol americano (conhecido nos EUA, como football) era praticado pelos alunos em seu principal campo (de terra). Já o futebol normal (chamado nos EUA por “soccer”), havia três categorias. “Menoritos” (crianças menores), “Médios” e “Maiores” (os craques de 9 a 12 anos). Além disso, o Ginásio Dom Lustosa congregava diversos atletas da cidade em um clube amador denominado E. C. Dom Lustosa. Tanto é que foi campeão em 1953, do Campeonato Municipal, disputando com o Ipiranga, Flamengo, Operário e outros. Sob a direção dos padres holandeses também, no futebol de salão e basquetebol apareceram os melhores atletas de Patrocínio nessas quadras da Escola. Já o vôlei foi com menos intensidade.
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O QUE ERA GRÊMIO SÃO LUIZ? – Na escola, além dos dormitórios e refeitório (para alunos do Internato e padres), biblioteca, laboratório físico-químico do Padre Caprázio, reduto de cobras, pássaros, etc., gráfica própria, jornal próprio (“O Ideal”), existia o auditório, que era um cineteatro. Aos domingos, exibia-se bons filmes (sem nudez), peças de teatro de alguns autores, tais como “A Incrível Genoveva”, do professor Franklin Botelho. E durante os dias de aula, com púlpito (tribuna), o auditório transformava-se em ambiente para discussão literária. Inclusive, ensaios para apresentação em forma de discurso, feita por alunos. Essa ação era o Grêmio São Luiz.
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EDUCAÇÃO FÍSICA ERA NA “CHÁCARA DOS PADRES” – Uma a duas vezes na semana, a prática de exercício físico acontecia a alguns quarteirões da Escola (hoje, em direção ao Bairro Santo Antônio/Morada Nova). Horário: a partir das 6h da manhã. Um belo riacho entrava de um lado e saia do outro lado da piscina. Água cristalina, para beber (hoje, inimaginável). Mas, bem fria. A preparação física era no campo de treino do futebol, sobre a direção de um professor de Educação Física.
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COSTUMES: PADRE SEM BATINA, JAMAIS... – Os holandeses não tiravam a batina branca. Padre Caprázio pedalando pelas ruas, com a sua bicicleta, de cano baixo, dava sinais com as mãos para aonde iria virar (Holanda é referência em ciclismo). Toda primeira sexta-feira do mês, antes de começar as aulas, a obrigação era orar e ouvir o Evangelho próximo à imagem de Jesus no jardim do Dom Lustosa.
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AUTOR – Batizado pelo Padre Willibrordo Meeder. Primeira Comunhão com Padre Nicásio van Diepen. Primeiro Diretor no Ginásio Dom Lustosa, quando este autor era aluno lá, Padre Melchior Schmierman. Último diretor do Dom Lustosa, na gestão dos holandeses, Padre Venâncio Hulselmans, que é o primeiro biógrafo de Padre Eustáquio. Maior amigo do autor entre os holandeses (talvez, por causa do desempenho escolar), Padre Caprázio Franken. Seu nome é homenagem ao “camisa 10”, dos padres holandeses, Padre Eustáquio van Lieshout. Uma vida com holandeses. Privilégio imensurável! De um simples patrocinense.
([email protected]) *** Primeira Coluna , edição de 20/09/2026, também publicada na RedeHoje e redes sociais.